Tirar o melhor partido de um mundo pós-pandémico
Mai, 14, 2020
A economia global será moldada nos próximos anos por três tendências. O relacionamento entre os mercados e o Estado será reequilibrado, a favor deste último. Isso será acompanhado por um reequilíbrio entre a hiperglobalização e a autonomia nacional, também a favor deste último. E as nossas ambições de crescimento económico precisarão de ser reduzidas. Por: Dani Rodrik; Fonte: Project-Syndicate

 

Tirar o melhor partido de um mundo pós-pandémico

A economia global será moldada nos próximos anos por três tendências. O relacionamento entre os mercados e o Estado será reequilibrado, a favor deste último. Isso será acompanhado por um reequilíbrio entre a híper globalização e a autonomia nacional, também a favor deste último. E as nossas ambições de crescimento económico precisarão de ser reduzidas.

Não há nada como uma pandemia para destacar a inadequação dos mercados diante dos problemas de ação coletiva e a importância da capacidade do Estado de responder a crises e proteger as pessoas. A crise provocada pela COVID-19 aumentou o volume de pedidos de seguro de saúde universal, proteções mais fortes do mercado de trabalho (incluindo gig workers - trabalhadores temporários, independentes, terceirizados...) e proteção das cadeias de abastecimento interno para equipamentos médicos cruciais. Isso levou os países a dar prioridade à resiliência e à fiabilidade na produção, e não à redução de custos e à eficiência através da terceirização global. E os custos económicos dos confinamentos aumentarão com o tempo, à medida que o enorme choque no abastecimento causado pela interrupção da produção interna e das cadeias de valor globais produz uma mudança descendente na procura agregada.

Mas embora a COVID-19 reforce e fortaleça essas tendências, não é a principal força que as impulsiona. As três tendências – maior ação governamental, recuo no hiperglobalismo e menores taxas de crescimento – são anteriores à pandemia. E, embora possam ser vistas como perigos significativos para a prosperidade humana, também é possível que sejam um prenúncio de uma economia global mais sustentável e inclusiva.

Veja-se o exemplo do papel do Estado. O consenso fundamentalista do mercado neoliberal está em retrocesso há algum tempo. A criação de um papel mais importante para o governo na resposta à desigualdade e à insegurança económica tornou-se agora uma prioridade central para economistas e governantes. Embora a ala progressista do Partido Democrata nos Estados Unidos tenha ficado muito aquém na nomeação presidencial do partido, ela ditou amplamente os termos do debate.

Joe Biden pode ser um centrista, mas em todos os aspetos políticos – saúde, educação, energia, ambiente, comércio, crime – as suas ideias estão à esquerda da candidata presidencial anterior do partido, Hillary Clinton. Tal como um jornalista referiu, “o conjunto atual de indicações políticas de Biden seria… considerado radical se tivesse sido proposto em qualquer uma das primárias presidenciais democratas anteriores”. Biden poderá não ganhar em novembro. E mesmo que ganhe, poderá não estar apto ou disposto a implementar uma agenda política mais progressista. No entanto, é claro que a direção nos EUA e na Europa caminha para uma maior intervenção estatal.

A única questão é qual é a forma que esse Estado mais ativista assumirá. Não podemos descartar o regresso a um dirigismo à moda antiga que alcança poucos dos resultados pretendidos. Por outro lado, a mudança do fundamentalismo de mercado pode assumir uma forma genuinamente inclusiva focada numa economia verde, nos bons empregos e na recuperação da classe média. Essa reorientação precisaria de ser adaptada às condições económicas e tecnológicas do momento atual, e não apenas imitar os instintos políticos das três décadas de ouro após a Segunda Guerra Mundial.

O regresso do Estado anda de mãos dadas com a renovada primazia dos Estados-nação. Em todo o lado se fala de desglobalização, dissociação, levar as cadeias de abastecimento para o nível interno, reduzir a dependência dos abastecimentos estrangeiros e favorecer a produção e o financiamento nacionais.

Os EUA e a China são os países que marcam o tom aqui. Mas a Europa, perpetuamente à beira de uma maior união fiscal, fornece pouco contrapeso. Durante esta crise, a União Europeia retrocedeu, mais uma vez, na solidariedade transnacional e enfatizou a soberania nacional.

O recuo na hiperglobalização poderia levar o mundo para um caminho de guerras comerciais desenfreadas e crescente etno-nacionalismo, o que prejudicaria as perspetivas económicas de todos. Mas esse não é o único resultado concebível.

É possível imaginar um modelo de globalização económica mais sensível e menos intrusivo, que se concentre em áreas onde a cooperação internacional realmente compensa, incluindo saúde pública global, acordos ambientais internacionais, paraísos fiscais globais e outras áreas suscetíveis a políticas protecionistas. Caso contrário, os Estados-nação seriam livres no modo como dão prioridade aos respetivos problemas económicos e sociais.

Uma ordem global desse género não seria hostil à expansão do comércio e investimento mundiais. Pode até facilitar as duas, na medida em que abre espaço para recuperar negociações sociais internas nas economias avançadas e elaborar estratégias de crescimento apropriadas nos países em desenvolvimento.

Talvez a perspetiva mais prejudicial que o mundo enfrenta a médio prazo seja uma redução significativa no crescimento económico, especialmente nos países em desenvolvimento. Estes países tiveram um quarto de século positivo, com notáveis reduções na pobreza e melhorias na educação, saúde e outros indicadores de desenvolvimento. Além do enorme impacto na saúde pública com a pandemia, eles agora enfrentam choques externos significativos: uma paragem repentina nos fluxos de capital e uma queda acentuada nas remessas, no turismo e nas receitas das exportações.

Mas mais uma vez, a COVID-19 apenas acentua um problema de crescimento preexistente. Grande parte do crescimento no mundo em desenvolvimento fora da Ásia Oriental baseou-se em fatores do lado da procura – investimentos públicos e booms de recursos naturais em particular – que eram insustentáveis. A industrialização orientada para a exportação, o veículo mais confiável para o desenvolvimento a longo prazo, parece ter seguido o seu percurso.

Os países em desenvolvimento terão agora de confiar nos novos modelos de crescimento. A pandemia pode ser o alerta necessário para recalibrar as perspetivas de crescimento e estimular o repensar mais amplo que é necessário

Na medida em que a economia mundial já estava num caminho frágil e insustentável, a COVID-19 esclarece os desafios que enfrentamos e as decisões que devemos tomar. Em cada uma destas áreas, os governantes têm opções. São possíveis melhores e piores resultados. O destino da economia mundial não depende do que o vírus faz, mas sim do modo como escolhemos reagir.

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Por: Dani Rodrik
Fonte: Project-Syndicate, em 12 de Maio de 2020
https://www.project-syndicate.org/commentary/three-trends-shaping-post-pandemic-global-economy-by-dani-rodrik-2020-05/portuguese

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