Mudança estrutural
Ago, 22, 2008
A economia portuguesa está a mudar na direcção certa, com base no seu próprio esforço de adaptação e não só no acesso a fundos externos e a endividamento, como sucedeu na década de 90.
Por: Teodora Cardoso
Fonte: Jornal de Negócios

 

A economia portuguesa está a mudar na direcção certa, com base no seu próprio esforço de adaptação e não só no acesso a fundos externos e a endividamento, como sucedeu na década de 90.

Por: Teodora Cardoso
Fonte: Jornal de Negócios

O crescimento e a diversificação das exportações, o abrandamento das importações, a aceleração do investimento empresarial e o crescimento da produtividade total dos factores são indicadores seguros dessa evolução, que tem vindo a acentuar-se desde 2005. O último dos indicadores apontados – a produtividade total dos factores – é especialmente interessante dado que mede a variação do produto que não é devida nem à variação do stock de capital nem à do emprego, reflectindo, portanto, alterações de natureza tecnológica e organizacional, ou seja, acréscimos de eficiência da estrutura produtiva, que terão de constituir a fonte essencial de aumento do rendimento e bem-estar num país cuja população está estagnada, ou mesmo em declínio, e que tem de competir internacionalmente com países com grande abundância de mão-de-obra e custos de produção muito baixos.

Como é próprio das alterações estruturais, esta tem sido gradual e dispersa por um conjunto muito vasto de indicadores, muitas vezes com pequenas variações que só agregadas e ao fim de algum tempo começam a ganhar expressão. Além disso, ela é em grande medida a resposta a uma crise estrutural resultante da perda de competitividade externa da economia, do rápido acréscimo do endividamento dos consumidores, das ineficiências acumuladas no sector público e do excesso de capacidade acumulada em sectores como a construção (sobretudo residencial) ou as indústrias trabalho-intensivas que beneficiaram até 2005 de um estatuto de protecção destinado a extinguir-se.

Não admira, nestas condições, que a opinião pública esteja mais consciente dos aspectos negativos da evolução – exemplificados pela persistência do desemprego, pela quase estagnação do consumo, ou pela correcção das expectativas quanto à evolução da idade da reforma e do valor das pensões – do que do seu lado positivo. As reformas necessárias em áreas chave das políticas públicas, como a educação (desde o ensino básico às universidades), a formação profissional, a saúde ou a segurança social tendem a acentuar essa percepção negativa, não porque reduzam a qualidade dos serviços prestados, mas porque – exactamente para a melhorar – são obrigadas a inverter o facilitismo que caracterizou o período de abundância financeira.

Desse facilitismo resultou, demasiadas vezes, a opção por falsas soluções, como a antecipação da idade da reforma em lugar da requalificação e da aprendizagem ao longo da vida, o incentivo ao emprego indiferenciado em sectores sem futuro, a multiplicação de cursos superiores sem saídas profissionais, ou a disseminação de estabelecimentos de ensino ou de saúde quando a evolução demográfica e tecnológica apontava no sentido oposto. Mas, por definição, corrigir o facilitismo implica adoptar soluções que exigem esforço e a abertura de espírito necessária para compreender que, no mundo que nos rodeia, já não faz sentido esperar do tirano benevolente, detentor de fundos europeus, a solução de problemas que só o nosso empenhamento pode resolver.

É precisamente nesta área que o papel dos políticos e dos comentadores é importante e não é desculpável o modo como está a ser exercido. Do lado do governo e das instituições públicas continua a ser insuficiente a divulgação de informação estatística – que não pode confundir-se com dados dispersos ou pontuais integrados em discursos políticos – que permita a avaliação objectiva da situação da economia e dos resultados das políticas. O carácter estrutural da mudança exige informação mais fina e sobretudo exige a divulgação de informação trabalhada, dado que não pode esperar-se que seja cada cidadão individualmente a trabalhar os dados desagregados que essa análise exige. As análises de conjuntura regulares e de qualidade já não são suficientes e importa criar incentivos para que os universitários se dediquem de forma academicamente competente, mesmo quando politicamente empenhada, a estudar a economia portuguesa e a divulgar – e debater – de forma regular e sistemática os resultados dessa investigação.

As falhas são, porém, muito maiores do lado da oposição e dos fazedores de opinião. Os dados disponíveis foram sempre suficientes para permitir as críticas ao facilitismo, ao despesismo ou ao imobilismo empresarial e sindical. Apesar das dificuldades, são ainda bastantes para revelar as mudanças nessas áreas e para permitir análises objectivas da situação e das políticas actuais. Tanto as políticas públicas, como os trabalhadores e os empresários – sobretudo os que sabem trabalhar em sectores expostos à concorrência – estão a evoluir de forma significativa e compete aos políticos criticar responsavelmente essa evolução, em vez de aproveitar todos os pretextos para a denegrir. É certo que Portugal está a tornar-se num país mais liberal. Resta reconhecer que essa é uma evolução positiva, mas que tem que impôr-se a interesses enraizados e a preconceitos ainda mais enraizados, de esquerda e de direita.

Fonte: Teodora Cardoso, Jornal de Negócios, em 31.Jul.2007

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