O descompasso bolsa-mercado
Out, 09, 2020
Por que as valorizações dos mercados de ações estão disparando enquanto a economia real continua tão frágil? Um fator está ficando cada vez mais claro: a crise vem afetando de modo desproporcional pequenas empresas e trabalhadores de baixos salários. Eles são essenciais para a economia real, mas não tanto para os mercados acionistas. É verdade, existem outras explicações para as estupendas valorizações atuais, mas cada uma tem sua limitação. Por: Kenneth Rogoff; Fonte: Project-Syndicate

 

O descompasso bolsa-mercado

Por que as valorizações dos mercados de ações estão disparando enquanto a economia real continua tão frágil? Um fator está ficando cada vez mais claro: a crise vem afetando de modo desproporcional pequenas empresas e trabalhadores de baixos salários. Eles são essenciais para a economia real, mas não tanto para os mercados acionistas. É verdade, existem outras explicações para as estupendas valorizações atuais, mas cada uma tem sua limitação.

Por exemplo, como os mercados de ações olham para frente, os preços atuais de ações podem refletir otimismo com a chegada iminente de vacinas eficazes contra a covid-19 e de opções radicalmente melhores de testagem e tratamento, o que permitiria uma abordagem mais contida e flexível dos lockdowns. Esta perspectiva pode fazer sentido, mas também pode ser que os mercados estejam subestimando a probabilidade de uma segunda onda forte neste inverno, além de superestimar a eficiência e o impacto das vacinas de primeira geração.

Uma segunda, e talvez mais convincente, explicação para o desempenho do mercado de ações atual é que os bancos centrais têm baixado as taxas de juros próximo de zero. Com os mercados convencidos de que há poucas chances das taxas subirem num futuro próximo, os preços dos ativos de longa durabilidade como casas, arte, ouro e até mesmo bitcoin foram todos empurrados para cima. E como as fontes de receita das empresas de tecnologia estão muito à frente no futuro, elas vêm se beneficiando das taxas de juros baixas de modo desproporcional.

Porém, de novo, não está claro que os mercados estejam corretos em antecipar uma continuidade infinita das baixas taxas de juros. Afinal, os efeitos negativos de longo prazo na oferta, particularmente em decorrência da globalização, podem durar muito tempo após a retomada da demanda mundial.

Uma terceira explicação é que, além de oferecer taxas de juro ultrabaixas, os bancos centrais estão apoiando diretamente mercados privados de títulos – o que representa uma intervenção inédita no caso do Federal Reserve americano. Estas compras de títulos privados não deviam ser entendidas como política monetária no sentido convencional. Em vez disso, elas se assemelham a uma política quase fiscal, com o banco central atuando como agente do Tesouro em uma situação de emergência.

Assim sendo, é provável que esta intervenção em particular seja temporária, embora os bancos centrais ainda não tenham conseguido telegrafar este fato aos mercados. Apesar da volatilidade macroeconômica fortemente elevada e de um estoque cada vez maior de dívidas corporativas, na prática os spreads das taxas de juros comparados à dívida pública estão diminuindo em muitos mercados, e o número de grandes concordatas empresariais até o momento continua notavelmente baixo, considerando-se a magnitude da recessão.

Em algum momento, os mercados serão forçados a abandonar a ideia de que os contribuintes irão pagar tudo para sempre. Os bancos centrais, em última análise, têm limites no volume de risco que podem assumir, e a crença de que ainda têm apetite para absorver mais pode ser questionada caso uma segunda onda aconteça neste inverno.

Embora estas três explicações deem algumas ideias de por que os preços das ações vêm subindo numa época em que a economia real está descendo, elas tendem a deixar de lado uma peça importante do quebra-cabeça: não são as empresas com ações públicas que estão lidando com a dor econômica imposta pela covid-19. Ela está caindo nas pequenas empresas e nos proprietários de pequenos negócios – de lavandarias a restaurantes a prestadores de serviços de entretenimento – que não estão listados na bolsa de ações (que tende a incluir mais o setor produtivo). Estes pagantes menores simplesmente não têm o capital necessário para sobreviver a um choque desta duração e magnitude. E os programas públicos que vinham ajudando a mantê-los com a cabeça fora d’água durante um tempo começam a caducar, aumentando o risco de um efeito bola de neve se houver uma segunda onda.
Algumas quebras de pequenas empresas serão vistas como o preço a se pagar pela reestruturação econômica mais ampla que a pandemia vem provocando. Porém, diversas empresas de outro modo viáveis também vão quebrar, deixando empresas negociadas publicamente em uma posição no mercado ainda melhor do que já tinham. De fato, esta também é outra razão para a euforia do mercado. (É verdade que algumas empresas têm pedido proteção contra concordata, mas a maioria – principalmente os varejistas tradicionais – já estava com problemas antes da pandemia.)

Para destacar ainda mais o impacto desigual da pandemia, as receitas do governo com impostos não caíram nem perto do que se esperaria, levando-se em conta a magnitude da recessão e os níveis recorde de desemprego comparáveis ao pós-guerra (ou, no caso da Europa, com os enormes gastos para pagar trabalhadores de licença). O motivo, sem dúvida, é que as perdas de empregos têm se concentrado entre indivíduos de baixa renda que pagam menos impostos.

Porém, os atuais mercados de ações em alta têm pela frente riscos não só econômicos, que incluem mas não se restringem à possibilidade significativa de uma crise política após a eleição presidencial dos EUA em novembro. Após a crise financeira de 2008, houve uma retaliação generalizada às políticas econômicas que pareciam favorecer Wall Street em vez da população. Desta vez, Wall Street será de novo culpada, mas a ira populista também vai mirar o Vale do Silício.

Um resultado provável, especialmente se o processo de desglobalização em andamento dificultar ainda mais para as empresas mudar suas operações para países com baixa carga tributária, será uma inversão na tendência de queda dos impostos das empresas. Isso não será bom para os mercados de ações, e seria um erro pensar que a resposta populista vá parar por aí.

Até que as valorizações do mercado de ações sejam sustentadas por uma ampla recuperação nos resultados de saúde e econômicos, os investidores não deviam ficar tão confortáveis com seus lucros pandêmicos excepcionais. Tudo que sobe também pode descer.

(Tradução de Fabrício Calado Moreira)

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Por: Kenneth Rogoff
Fonte: Project-Syndicate, em 5 de Outubro de 2020
https://www.project-syndicate.org/commentary/stock-market-disconnect-covid-sparing-publicly-traded-firms-by-kenneth-rogoff-2020-10/portuguese

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