Morena de Angola
Publicado em Mar, 08, 2012
O caminho a percorrer é longo para que Angola possa ambicionar uma posição de relevo nos negócios do hemisfério norte. Mas há aspectos interessantes na sua trajetória. O primeiro é que as decisões estratégicas não são tomadas em Londres, em Paris ou em Nova Iorque, mas em Luanda. O segundo é que fizeram da língua portuguesa uma afirmação de nacionalidade O terceiro é que tratam todos com igual sobranceria portuguesa, americanos, franceses ou chineses. E o quarto, por mais que não queiramos ver, é que ainda têm uma queda por Portugal. Por Luis Nazaré Fonte: Jornal de Negócios

 

Há por aí muito preconceito em relação a Angola e ao capital petrolífero, como se o dinheiro tivesse a cor da virtude e os seus agentes fossem santos. Nos negócios, as regras são simples. Em tempos de aperto, mais simples ainda. Quando se trata de garantir a sobrevivência ou a sustentabilidade de empresas, há que encontrar parceiros disponíveis para as necessárias entradas de capital, venham eles donde vierem. Pelos vistos, os nossos colegas alemães sentem-se muito incomodados com a situação, não se eximindo a remoques de mau gosto sobre as ligações entre Portugal e Angola. Mas então, por que não se substituem aos angolanos, em nome dos "bons costumes europeus"?

Os esgares de desdém não são exclusivos da moral protestante. Por cá, não são poucos os que maldizem a chegada de capitais e de influência angolana na economia portuguesa. Para essa atitude concorrem variados factores, uns poucos de ordem racional e muitos de natureza emocional – na verdade, não é de um dia para o outro que se ultrapassam os traumas de uma relação colonial secular. Do lado português, há como que um sentimento de velho fidalgo, sem posses nem projecto de futuro, que se vê diminuído e violentado pela ascensão dos antigos servos, com os bolsos cheios de dinheiro fácil. Do lado angolano, impera uma indisfarçável atitude de sobranceria perante a sua nova condição de salvadores da ex-metrópole – quem duvidará do prazer que o Futungo de Belas sente perante a influência crescente da sua burguesia-proveta na economia portuguesa?

Argumentam alguns espíritos mais racionais com a natureza dita cleptocrática do regime de Luanda e com a frieza arrogante do seu relacionamento actual com os portugueses, longe do que esperariam encontrar se existisse uma lógica genuína de cooperação lusófona, uma espécie de registo solidário entre os que ontem foram senhores e os que hoje o são. Dizem que uma relação baseada na "revanche" ostentatória não dá garantias de futuro e que os generais-capitalistas angolanos só querem utilizar Portugal como plataforma de credibilidade para outros destinos, onde não a possuem. Dizem ainda outras coisas, mais feias, que me abstenho de reproduzir porque estou bem ciente dos problemas de memória dos antigos colonizadores.

Despido que estou de traumas coloniais, tendo a olhar para o actual quadro de relações entre os dois países de uma forma desapaixonada, à temperatura ambiente. A Angola pós-guerra civil concebeu um modelo de poderio económico baseado nos seus excelentes recursos naturais (petróleo e diamantes, entre outros por explorar), como recomendam os manuais de economia. Nada de muito diferente do que outros países fizeram – para não irmos mais longe, a Noruega dos excedentes orçamentais. Moralismos à parte, que esses ninguém pode exibir, o regime angolano traçou um caminho de acumulação de riqueza baseado na ascensão programada dos generais da guerra a neo-capitalistas. Os métodos foram aproximadamente os mesmos que as nações europeias há séculos seguiram com os seus nobres.

Desigualdades sociais gritantes? Sim. Novo-riquismo, arrogância? Sim. Opacidade e intermediação forçada nas relações empresariais? Sim. O caminho a percorrer é longo para que Angola possa ambicionar uma posição de relevo nos negócios do hemisfério norte. Mas há aspectos interessantes na sua trajectória. O primeiro é que, ao contrário da esmagadora maioria dos países africanos, as decisões estratégicas não são tomadas em Londres, em Paris ou em Nova Iorque, mas em Luanda. O segundo é que fizeram da língua portuguesa uma afirmação de nacionalidade, algo que só um Portugal burro poderá subestimar. O terceiro é que tratam todos com igual sobranceria – portugueses, americanos, franceses ou chineses. E o quarto, por mais que não queiramos ver, é que ainda têm uma queda por Portugal. Eu tenho uma queda por eles.

Por Luis Nazaré
Fonte: Jornal de Negócios, em 8 de Março

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