No século XX, o sonho americano da vida de uma classe média inspirou o mundo. Agora, no século XXI, estamos a caminhar, a alta velocidade, para um mundo baseado numa nova geografia de crescimento, com milhões de pessoas no este e no sul do globo a afastarem-se da pobreza extrema e a tornarem-se, possivelmente, em poderosos consumidores da classe média. Se o sonho de uma nova classe média global se torna realidade ou se se transforma num pesadelo vai depender de muitos factores.
No actual mundo em mudança, com o Produto Interno Bruto (PIB) de, aproximadamente, 80 economias em desenvolvimento a duplicar o ritmo de crescimento per capita da OCDE, o clube dos países mais ricos do globo, os cidadãos da classe média estão, paradoxalmente, a queixarem-se e a protestarem, independentemente do facto de as suas fortunas estarem a crescer ou a decair. Moisés Naím, antigo ministro do Comércio e da Indústria venezuelano, alerta, até, para uma possível "emergente guerra global de classes médias".
O elevado crescimento em países da Ásia e do sul do globo significa maiores receitas com exportações e maiores receitas conseguidas com os recursos naturais. Infelizmente, esta bênção pode tornar-se numa maldição. Na China, a visão do antigo líder comunista Deng Xiaoping – "deixar algumas pessoas ficarem ricas em primeiro lugar" – conduziu a um impressionante crescimento económico e à redução da pobreza. Contudo, também enfraqueceu a autoproclamada "sociedade harmoniosa", como indicam os recentes protestos e conflitos laborais.
Na realidade, é importante salientar que, na Primavera de 2011, as autoridades municipais de Pequim baniram todos os anúncios de produtos luxuosos em cartazes de rua que podiam contribuir para um "ambiente político pouco saudável".
Uma crescente desigualdade, ausência de participação cívica, apatia política e escassez de bons empregos, particularmente para os mais jovens, formam o calcanhar de Aquiles do actual modelo de desenvolvimento dos países emergentes. Uma sondagem da organização Gallup sobre o bem-estar subjectivo na Tunísia e na Tailândia mostra que, embora os níveis de rendimentos e as condições sociais em ambos os países tenham melhorado entre 2006 e 2010, a satisfação com a vida caiu.
Homi Kharas, um membro senior do Brookings Institution, em Washington, define a classe média de hoje como famílias com despesas diárias de entre 10 e 100 dólares por pessoa (em paridade do poder de compra). Isto representa perto de duas mil milhões de pessoas, divididas quase uniformemente entre economias desenvolvidas e emergentes. Nas suas Perspectivas para o Desenvolvimento Global 2012 – Coesão Social num Mundo em Mudança, a OCDE estima que, em 2030, a classe média global poderá ascender a 4,9 mil milhões. Destes, entre 3,2 e 3,9 mil milhões estarão a viver, provavelmente, em economias emergentes, representando entre 65% e 80% da população global.
Estas pessoas vão exigir mais e melhores serviços, uma divisão mais justa dos benefícios trazidos pelo crescimento e instituições políticas mais adequadas. A recente onda de protestos pode ser o início desta tendência.
Mas, então, o que deve ser feito? Em primeiro lugar, têm de ser instituídas protecções sociais mais extensas. A maior parte da classe média emergente está apenas a uma alteração no salário para regressar novamente à pobreza. Para combater este risco, os programas de Segurança Social devem ser gradualmente prolongados para além da assistência social. O sistema de garantias de emprego da Índia, o programa de seguros de saúde do Gana e o plano de pensões financiadas por impostos do Lesoto, que cobre mais de 90% da população, são todos eles modelos de protecção social úteis para as classes médias emergentes.
Em segundo lugar, mais (e melhores) empregos são, desesperadamente, necessários. A força de trabalho global ascende a três mil milhões de pessoas, sendo que dois terços estão informalmente empregadas. Na realidade, em países como a Índia, o número de postos de trabalho sem protecção social tem subido, apesar do crescimento sustentado. Na Tunísia, a probabilidade de desemprego aumenta à medida que melhoram os níveis de educação, atingindo perto de 30% entre os que apresentam melhores qualificações. Número que compara com apenas 8% entre os menos qualificados. A educação no mundo em desenvolvimento tem de sofrer uma reforma para responder à procura por qualificação.
Em terceiro lugar, é essencial um contrato social – um que implique melhores serviços e uma maior prestação de contas dos governos – para melhorar a política orçamental e para mobilizar os recursos domésticos. Em países cujas populações são genuinamente livres e onde beneficiam de serviços públicos de boa qualidade, a confiança social aumenta e os cidadãos estão mais dispostos a pagar impostos. As sondagens de opinião mostram que, nos países onde as pessoas não confiam umas nas outras, mais de um terço da população considera que a evasão fiscal é aceitável. Este valor desce para um décimo no caso das nações em que as pessoas confiam umas nas outras.
Finalmente, como provou a Primavera Árabe, qualquer Estado que não dê um espaço adequado aos seus cidadãos para exercerem a sua voz, e daí fortalecerem a lealdade, acaba por se tornar insustentável. Os governos têm de aceitar o pluralismo e a utilização de media sociais, como o Facebook e o Twitter, deve ser autorizada, de forma a facilitar a troca de opiniões entre os cidadãos. A Plataforma Ushahidi, do Quénia, que permite aos utilizadores de Internet um acesso rápido a informação sobre abusos aos direitos humanos, como o tráfico, é um exemplo sofisticado de como os recursos tecnológicos podem criar cidadãos com ferramentas poderosas para monitorizar o comportamento dos seus governos.
A ascensão da classe média global vai transformar a paisagem social, política e económica de todo o mundo. A promoção de sociedades coesas – em que as pessoas se sintam protegidas, em que os cidadãos confiem uns nos outros e em que os esforços sejam recompensados – é a chave para a concretização dos sonhos dos seus membros.
Por: Johannes Jütting.
Fonte: Jornal de Negócios, em 19 de março